Terça-feira

JORNAL HOJE EM DIA

Após recuo por 4 anos, entidades do setor imobiliário apostam em expansão de 2% nos empreendimentos

Os bons ventos que sopraram na economia brasileira na segunda metade de 2017 e a reabertura, no início deste mês, pela Caixa, da linha habitacional Pró-cotista, destinada aos trabalhadores que têm contas no FGTS, fazem com que entidades do setor imobiliário e da indústria da construção civil de Minas Gerais - cuja previsão de crescimento para 2018 é de 2%, depois de quatro anos de recuo - estejam otimistas com o desempenho do segmento no Estado, nos próximos meses.

Seja por meio do aporte de investidores, muitos deles afastados dos ativos imobiliários nos últimos três anos, ou de consumidores finais, em busca de imóveis comerciais ou da casa própria para comprar, a expectativa, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), é de que o número de empreendimentos cresça de maneira gradual, mas consistente .

"Ao contrário do que ocorreu por volta de 2009 e 2010, quando o setor registrou um boom de empreendimentos depois de três anos seguidos de retração e houve um crescimento desequilibrado da oferta em relação à demanda, o que esperamos é que, em 2018, tenha início um ciclo de retomada mais equilibrado, com elevação gradual dos negócios", diz o diretor da Área Imobiliária do Sinduscon-MG, Braulio Franco Garcia.

"A expectativa é de que, depois de um período de vacas magras, o mercado volte a respirar e que 2018 seja a concre-tização do antigo ditado: ano novo, casa nova", completa a presidente da Câmara do Mercado Imobiliário e do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Cassia Ximenes.

Financiamento

A reabertura da linha Pró-Cotista da Caixa, suspensa em setembro do ano passado por falta de reservas, não deve trazer impacto para o mercado de novos empreendimentos. Na avaliação de especialistas no setor em Minas, o reflexo positivo deve ser sentido no segmento de unidades em estoque. Ao todo, a Caixa está liberando R$ 4 bilhões para todo o país (10% para Minas), cerca de R$ 2 bilhões a menos que no ano passado.

"Sem dúvida, esses recursos darão uma aquecida no mercado de imóveis prontos, reduzindo estoques que estão elevados", afirma o vice-presidente do Sinduscon-MG, Geraldo Linhares Júnior.

Responsáveis pela concessão de crédito imobiliário da Caixa, donos de agências negociais de correspondência bancária da capital já registram aumento na procura de interessados.

Os irmãos Francisco e Adelaide Latalisa, donos de um desses escritórios, revelam que, nos últimos dias, a unidade, que estava praticamente sem receber novos proponentes desde setembro, tem atendido de 10 a 15 pessoas por dia.

"Gente que se frustrou com a interrupção do crédito, no ano passado, está voltando a procurar a Caixa e sendo encaminhada para nosso escritório", diz Adelaide.

Apesar da movimentação, Francisco não está tão otimista. Para ele, os recursos do Pró-cotista, inferiores aos do ano passado, "podem até aquecer o mercado, mas estão bem aquém da demanda e devem acabar em pouco tempo".

Capital mineira teve maior valorização no preço médio de imóvel

Belo Horizonte foi a cidade que registrou a maior elevação do preço médio de imóveis em 2017, segundo o índice Fipezap, divulgado ontem. Com aumento médio de 4,77% nos valores, bem acima do IPCA do período (2,78%), a capital liderou um ranking que, no geral, teve recuo médio de valores de 0,53% entre 20 centros pesquisados. Foi, aliás, o primeiro ano de retração nos preços dos imóveis em uma década, a partir do início da medição.

Em 13 das 20 cidades pesquisadas onde houve recuo de preços, os destaques foram Rio de Janeiro (-4,45%), Niterói (-3,43%), Fortaleza (-3,35%) e o Distrito Federal (-2,27%). Entre as sete em que houve aumento, depois de Belo Horizonte, vieram Florianópolis (4,34%), São Paulo (1,40%) e Vila Velha (1,35%).

Segundo o advogado e especialista em imóveis Kenio Pereira, a explicação para a alta na capital está na redução de lançamentos, o que contribuiu para controlar a oferta diante de uma demanda já reprimida em razão de fatores como a crise econômica e o desemprego.

"O que houve foi uma habilidade maior dos construtores que atuam na cidade, que, percebendo as dificuldades do mercado, reduziram os lançamentos, diminuindo a oferta e favorecendo essa ligeira recuperação dos preços, algo natural do mercado", analisa.

Para os primeiros meses de 2018, conforme o advogado, mesmo que tenha havido pequena elevação de preços, a boa notícia é para quem pensa em adquirir imóveis. "São vários os fatores positivos que favorecem a compra. As incorporadoras e construtoras têm custos fixos e necessidades operacionais que as tornam mais flexíveis e as deixam mais abertas a propostas de parcelamento ou de desconto à vista", garante.

Pela pesquisa Fipezap, em dezembro de 2017 os metros quadrados com valores mais elevados na capital mineira ocorreram na Região Centro-Sul, com destaque para Savassi (R$ 11.600), Santo Agostinho (R$ 10.521), Funcionários (R$ 10.340), Lourdes (R$ 9.644) e Belvedere (R$ 9.234). Os mais baixos foram apurados nos bairros Jaqueline, Europa, Solar do Barreiro, Serra Verde e Vale do Jatobá: abaixo de R$ 3 mil.

Saiba mais

Segundo dados divulgados pelo Sinduscon-MG em dezembro último, relativos ao período de janeiro a setembro, o PIB da Construção Civil em Minas Gerais caiu 7,7%, em 2017 em comparação ao mesmo período do ano anterior.

O mercado de trabalho formal no setor sentiu os efeitos da queda de atividades. Apesar de registrar resultados positivos no Estado no período de janeiro a outubro de 2017 (geração de 6.882 novas vagas), o saldo dos últimos quatro anos ainda foi bastante negativo (-111.050 postos de trabalho).

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o número de trabalhadores com carteira assinada na construção, que em outubro de 2016 era de 142.796, passou para 136.957 em igual mês de 2017: redução de 4,09%.

"Tivemos um retrato ruim desse ano, mas foram plantadas sementes positivas para 2018. O mercado não é linear e 2018 traz boas expectativas. Estamos esperando um ano de recuperação e números positivos no setor da Construção Civil", avalia o vice-presidente da área imobiliária do Sinduscon-MG, José Francisco Cançado.

A opinião é reforçada pelo economista e coordenador sindical da entidade, Daniel Furletti. "Vemos bons ventos para este ano. Do ponto de vista macroeconômico, estamos melhores se compararmos aos dois últimos anos. Mas precisamos ainda de mais reformas. A da Previdência está em andamento, mas precisamos que as reformas Tributária e Administrativa também aconteçam", analisa.

 

VALOR ECONÔMICO

Investimento deve aumentar 6% este ano, diz Giambiagi

Em um contexto de estabilidade política e econômica, o investimento deve voltar a ajudar a alavancar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos, diz o economista-chefe do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fabio Giambiagi. O banco, cujo papel central é induzir o investimento, trabalha com um cenáriobase de crescimento de 6% para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - medida do que se investe em máquinas, equipamentos, construção civil e inovação - em 2018. "Olhamos para o futuro com um otimismo cauteloso", disse Giambiagi, em entrevista ao Valor.

Apesar de no período janeiro-novembro de 2017 as consultas, aprovações e desembolsos - indicadores de investimento no BNDES - ainda mostrarem queda, Giambiagi disse que é preciso olhar os números com "lupa". Ao desagregá-los, afirma, é possível ver um crescimento de 26% no valor das aprovações do Finem, que responde pelas operações diretas, o "coração" do banco; e de 22% na Finame, a linha que financia máquinas e equipamentos. Em 2017, os desembolsos do BNDES responderam por cerca de 7% da FBCF.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: No começo de dezembro, o IBGE mostrou, nos dados do PIB, que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) subiu 1,6% no 3º trimestre ante o 2º trimestre de 2017. A taxa de investimento foi de 16,1% no terceiro trimestre. Como o BNDES avalia a evolução do investimento na economia brasileira ao longo de 2018?

Fabio Giambiagi: É importante dar uma dimensão bem precisa do processo do qual estamos tratando. No caso do PIB, entre o quarto trimestre de 2014 e o quarto de 2016 o PIB trimestral dessazonalizado encolheu nada menos que 8%. Já no caso do investimento, a queda foi mais longa e mais intensa: a retração se iniciou ainda no fim de 2013 e, entre o terceiro trimestre de 2013 e o primeiro de 2017, a redução acumulada foi de espantosos 29%. Depois de um processo desse tipo, é até certo ponto natural que num primeiro momento, antes de construir novos galpões, se ocupe aquilo que deixou de ser utilizado na crise. E que crise! Essa dinâmica explica em parte o que está acontecendo com a construção civil, fenômeno também evidentemente associado à retração relacionada com as empresas envolvidas na Lava-Jato. De qualquer forma, dentro de um ambiente ainda complexo, quero chamar a atenção para o que vem acontecendo com a indústria de bens de capital, que está se recuperando a uma boa velocidade.

Valor: Quais são os números?

Giambiagi: Se olharmos para o gráfico com ajuste sazonal, vemos uma curva clara de melhora nos últimos meses, a ponto da comparação dos três meses de setembro a novembro em relação aos mesmos meses de 2016 exibir um crescimento desse segmento de nada menos que 10 %, sendo que o fato de tomar uma média de três meses indica que não se trata de algo de tomar uma média de três meses indica que não se trata de algo meramente pontual. Em relação a 2018, a expressão que venho usando desde o fim de 2016 é que estamos olhando para o futuro com otimismo cauteloso e, em relação a um ano atrás, diria que hoje estou um pouquinho mais otimista e um pouquinho menos cauteloso.

Valor: Por quê?

Giambiagi: De um modo geral, a evolução da macroeconomia em 2017 foi positiva e nós temos visto alguns processos se firmando. A economia tem se mostrado bastante resiliente, mesmo em um contexto de ambiente político conturbado. Para 2018, vemos o investimento continuando a se recuperar paulatinamente, com uma velocidade e intensidade que naturalmente dependerão em parte dos sinais emanados da esfera política. Quanto mais perspectivas houver de que a política econômica de 2019 será parecida com a de 2018, maior será a confiança para colocar o pé no acelerador dos projetos. Nosso cenário-base é de um crescimento de 6% para a Formação Bruta de Capital Fixo [FBCF] em 2018.

Valor: O que sustentará esses 6% de crescimento no investimento?

Giambiagi: A curto prazo há duas forças que atuam em sentidos opostos. Por um lado, depois de anos de recessão, tem capacidade ociosa que tende a conspirar contra o investimento uma vez que, em muitas empresas, a prioridade é ocupar galpões já disponíveis. Por outro, olhando para frente, depois de alguns anos de recessão, há setores, como as indústrias associadas à tecnológica da informação [TI], cujos equipamentos ficaram obsoletos. Se não age rapidamente, em função da pressão da concorrência, perde 'market share' [participação de mercado]. Então temos hoje um início de retomada, partindo de uma contração violenta do investimento nos últimos anos. E estamos falando dessa perspectiva de crescimento [para a FBCF] que é o dobro da taxa de crescimento [prevista] do PIB, mas que fica aquém de crescimentos observados em outras ocasiões de recuperação cíclica com forte crescimento inicial do investimento. É algo animador, mas não é nada que não tenha sido observado no passado.

Valor: E nos próximos anos?

Giambiagi: É claro que isso dependerá das diretrizes que forem definidas em 2019 para os rumos do país nos anos posteriores. E não só dos rumos. Muito dependerá do relacionamento entre o Executivo e o Legislativo e do apoio que existir para o Executivo. Se você olhar os números trimestre a trimestre, a trajetória ao longo de 2015 foi impressionante: tudo estava em queda livre: PIB, investimento e consumo. Por quê? Porque o ambiente que se vivia era caótico: um ministro da Fazenda atacado pelo partido da presidente da República, Executivo e Legislativo em guerra aberta etc. Foram os tempos negros da famosa pauta bomba congressual. Era um espetáculo que lembrava o filme "Apocalipse Now", com o título que se aplicava àquela situação e a frase famosa repetida pelo personagem que repete, diante do inimaginável: "o horror, o horror". Por isso, eu venho dizendo que, mais importante do que saber quem será o ministro da Fazenda do próximo presidente da República, será saber quem será o ministro encarregado de fazer a ponte com o Congresso. Essa arte não é para amadores, e se o próximo presidente não souber operar com maestria nesse ambiente, o risco de repetir 2015 existe. Por outro lado, em ambiente de harmonia entre Executivo e Legislativo e estabilidade olhando quatro anos à frente, poderemos ter um período de governo excelente, com confiança, contas públicas progressivamente melhores, juros baixos e inflação sob controle. A variável principal para que tenhamos, eventualmente, até um 'boom' de investimento de 2019 em diante é a percepção de 'ter chão' pela frente. Tem muita gente com tudo engatilhado para deslanchar processos de investimento. Alguns, pela situação da concorrência, estão se aventurando em 2018. E esse panorama, potencialmente, poderá ficar mais claro em 2019.

Valor: É possível pensar em um aumento do investimento em relação ao PIB como cenário futuro?

Giambiagi: Sem dúvida. Eu diria que, desde que haja um bom entendimento entre Executivo e Legislativo e um presidente da República que seja inspirador, agregador e articulado, tomando a expressão que escutei outro dia de um amigo do setor financeiro com um diagnóstico correto da outro dia de um amigo do setor financeiro, com um diagnóstico correto da situação e um plano de voo que faça sentido, o cenário estará armado para termos quatro anos de uma belíssima trajetória do investimento. No caso da infraestrutura, porque depois de oito anos de confusão e incerteza, poderemos ter regras claras e um ambiente pró-negócios. No caso das empresas não ligadas à infraestrutura, o esgotamento gradual da capacidade ociosa fará com que chegue a hora de investir. E no caso das famílias, com a renda crescendo e o desemprego em queda, as pessoas vão voltar a pensar em comprar casa própria, passar de quarto para dois, ou de dois para três e, enfim, as engrenagens enferrujadas vão voltar a se movimentar.

Valor: Um dado que chamou a atenção na divulgação do PIB é o fato de os números do IBGE indicarem uma recuperação no investimento, enquanto as consultas e enquadramentos no BNDES até novembro ainda mostrarem queda. Como explica a diferença? É pelo fato de as consultas ao BNDES não refletirem o investimento geral na economia, mas somente o investimento que considera bens e equipamentos nacionais financiados via Finame? Essa é uma explicação possível?

Giambiagi: Vou repetir a imagem surrada de que isso aqui [o BNDES] é um transatlântico. O deslocamento que ocorre em certo momento é resultado de uma guinada que ocorreu muito tempo atrás. Nós não podemos criar desembolsos do nada. Para que tenha um desembolso em 2017, é necessário que o projeto tenha sido aprovado antes e para isso é preciso que, por sua vez, antes disso tenha havido um enquadramento. É uma história longa, que se inicia na fase embrionária da consulta. E o fato é que em 2017 nós simplesmente não tínhamos carteira constituída para poder aspirar a um grande volume de desembolsos.

Valor: Há outra explicação?

Giambiagi: Dito isso, há outra coisa a ser dita: em 2017, houve duas tendências muito negativas, representadas pela queda do Cartão BNDES [que deixou de ser operado pelo Banco do Brasil ] e pelo encolhimento muito grande das operações de apoio à exportação. Tirando isso, o resto até que tem evoluído razoavelmente. Finalmente, um terceiro elemento que é preciso enfatizar é olhar para o que acontece antes do desembolso e, nesse sentido, quero destacar que no acumulado do ano até novembro nós tivemos um crescimento de 26% do valor das aprovações do Finem [operações diretas], que é de certa forma o "coração" do banco, e uma expansão de 22 % do BNDES [nas aprovações] da Finame, que mostra mais rapidamente o pulso da economia. São dados promissores para o futuro.

Valor: Como prevê o cenário de demanda sobre o BNDES para 2018 considerando a recuperação da economia e o fato de o banco estar operando com a TLP? O BNDES continuará atrativo para as empresas financiarem seus investimentos?

Giambiagi: Quero chamar a atenção para um dado. Em 2017, tivemos uma TJLP média no ano em torno de 7,1% e uma inflação que talvez feche em 2,9%, ou seja, uma TJLP real de mais de 4%. Em 2018, teremos uma TLP real que começará sendo de 2,7 %. Consequentemente, ela irá cair em relação ao ano passado. Com a vantagem de quem contratar o empréstimo terá a garantia de que a taxa real será dada por todo o contrato e não acontecerá mais a esquizofrenia dos últimos anos, quando a TJLP real oscilou entre menos 4% e mais 4%, dificultando dramaticamente o cálculo econômico, uma vez que o tomador não sabia exatamente que produto estava comprando. Se previsibilidade é o nome do jogo, nada mais previsível do que a TLP. Uma vez que ela for contratada, a incerteza associada ao seu valor futuro para o tomador será zero. Por outro lado, sou realista e imagino que é razoável que em 2018 haja algum período inicial de aprendizado no qual teremos que arregaçar as mangas e explicar bem como funcionará o banco com as novas regras, especialmente junto às pequenas e médias empresas, cujo grau de informação é menor. A curto prazo, então, teremos as dificuldades iniciais de toda mudança e o aumento da demanda associado à melhoria do investimento. Passada a transição, depois de alguns meses, espero que só o segundo vetor esteja agindo.

Valor: O que precisa acontecer para que o investimento seja sustentável a médio e longo prazos?

Giambiagi: Precisa ter estabilidade macroeconômica e juros baixos, não artificialmente baixos como de 2012 e 2013, mas sim um movimento de juros reais e duradouros, que é algo que começa a frequentar as conversas dos economistas. No passado, sempre que o mercado olhava uma situação de juros conjunturalmente baixos, e projetava o futuro, voltava a juros elevados. Lembro de um economista que, em 2004 e 2005, entendia que o Banco Central nunca iria deixar o Brasil ter juros reais duradouros de menos de 8% ao ano. Isso está sepultado, ninguém visualiza algo assim. Pode ser, eventualmente, que a Selic suba um pouco, mas nos cenários contemplados ninguém vislumbra a Selic voltando a 14% ao ano. Estamos falando de um quadro em que podemos ter ainda um ponto de interrogação, mas há um conjunto de elementos que se somam para ter juros estruturalmente baixos, sujeito, é claro, ao 'teste do pudim' da realidade de 2019. Estamos falando de cenário de continuidade da política atual, de aprovação das reformas, de um quadro que torne viável a manutenção do teto real do gasto público.

Valor: Como o sr. vê o Brasil no contexto regional?

Giambiagi: É um ponto interessante. Há um potencial muito grande para o Brasil voltar a ser a grande referência regional. Estive recentemente alguns dias na Argentina. O presidente [Maurício] Macri está operando com grande habilidade política, mas o fato é que eles [os argentinos] estão começando um processo de crescimento já na largada com déficit em conta corrente de mais de 4 % do PIB e um déficit público parecido com o nosso, mas com inflação de 25% e o Banco Central muito questionado, contrariamente ao nosso, que tem dado um show de competência. O Chile tem sido um exemplo, mas é um país pequeno. O México nunca acaba de engatar a terceira marcha em matéria de crescimento. De modo que, se fizermos nosso dever de casa bem feito, o país poderá voltar a ter um papel de liderança na região, como nos anos da Presidência de FHC [Fernando Henrique Cardoso] e do presidente Lula [Luiz Inácio Lula da Silva].

Valor: O sr. parece otimista.

Giambiagi Em 2017, completei 30 anos desde que comecei a incursionar na temática fiscal, em 1987. Fui o segundo redator da seção de política fiscal do Boletim de Conjuntura do Ipea [Instituto de Política Econômica Aplicada]. A colega que escreveu para o número 1 se aposentou e eu fui então do alto dos meus 25 anos meter a cara no tema. E em função disso logo, logo acabei trabalhando com cenários. Pensando cinco a dez anos à frente, confesso que nunca vi um quadro de narrativas possíveis de médio e longo prazos tão contrastante quanto as que podem ser contadas agora. Eu posso desenvolver para você uma história do futuro que fale de um desastre completo, reeditando alguns de nossos velhos fantasmas como uma inflação alta ou altíssima, ou o calote da dívida, porque, obviamente, com um déficit de 8% a 9% do PIB, se não houver ajuste, será preciso começar a pensar no impensável, como disse uma vez a "The Economist". O termo foi usado [pela revista] quando a conversibilidade de Domingo Cavallo [ex-ministro da Economia da Argentina] começou a fazer água, e eles falaram em "think about the unthinkable". Por outro lado, um governo que conserve a rota reformista e mantenha a inflação sob controle e o comando da agenda legislativa terá tudo para comandar o que um ex-presidente chamou do espetáculo do crescimento, com música de fundo. Antes, olhando cinco anos para frente, eu dizia que o cenário A era de crescimento de 2,5% e o cenário B, de 4,5%, ou o cenário A de crescimento de 1,5%, e o B, de 3,5% ao ano. Agora, quando penso no Brasil de quando eu tiver 65 anos, hoje tenho 55, vejo ora o céu ora o inferno. Em um caso, com novas reformas, o Brasil no qual a geração de nossos filhos irá viver será melhor que o país que nos tocou. No outro, sem reformas, com estagnação e dívida explosiva, só nos restará dançar um tango argentino. Posso responder à sua pergunta em janeiro de 2019? Será mais fácil.

 

Fitch vê cenário melhor para ratings em 2018

Uma onda de otimismo trouxe os mercados globais de crédito para o melhor momento desde a crise financeira de 2008, afirmou a Fitch Ratings, em seu Relatório de Perspectivas Globais, referente a dezembro de 2017. Em número, há a expectativa de que os "upgrades" de classificação de dívida soberana e corporativa superem os rebaixamentos neste ano - uma prova de um divisor de águas no cenário pós-crise.

No curtíssimo prazo, portanto, "a tendência dos ratings é a mais otimista em uma década, com perspectivas positivas superando em número as negativas", afirma a agência. "O saldo médio líquido das perspectivas em todos os setores se tornou globalmente positivo pela primeira vez desde a crise financeira, em +1,1% em 30 de novembro de 2017, ante -7,9% no início do ano."

Mas este viés otimista vem junto com uma preocupação, já que "ocorre quando o mundo está prestes a atingir o pico de crescimento no ciclo atual". Ou seja, à medida em que as injeções de liquidez no âmbito dos programas de expansão quantitativa ("QE") sejam reduzidas até serem findas, que as políticas monetárias sejam normalizadas (o que pressupõe alta de juros nos países desenvolvidos) e as incertezas políticas cresçam com a proximidade de eleições importantes pelo globo, os riscos tornarão a crescer.

Pelo tom da Fitch, a leitura é que uma janela está aberta neste momento, mas não necessariamente esse cenário se sustentará mais à frente. Nesse momento de boas perspectivas, se enquadram o ainda vigoroso crescimento econômico, as políticas monetárias e fiscais bastante favoráveis e os preços de commodities mais estáveis. A Fitch espera que o crescimento global alcance 3,3% em 2018, impulsionado pelo aumento do investimento. Para além deste ano, no entanto, as reversão destas condições deve fazer com que haja moderação no desempenho do PIB.

O fim dos "QEs" pode exercer pressão sobre os títulos soberanos, já que a dívida pública é elevada em muitos países, alerta a agência. "Os bancos podem estar expostos a problemas de qualidade de ativos após o longo período de crédito barato, com risco de desinflação dos altos preços de imóveis em alguns países, de acordo com que o ciclo das taxas de juros mude." No setor corporativo, continua a Fitch, o emissor de mercados emergentes poderia ser desafiado pela reversão dos fluxos de capitais, mas é provável que os mercados desenvolvidos lidem com isso bastante bem. "No entanto, certos subsetores enfrentam a pressão de classificação por motivos idiossincráticos, como o varejo tradicional nos EUA e na Europa."

Além disso, a Fitch enfatiza que sua visão vem no contexto de anos de enfraquecimento de ratings: a participação das instituições financeiras com classificações entre "AAA" e "A", por exemplo, atingiu 37% no fim de novembro, em comparação com 54% antes da crise. As áreas geográficas com viés negativo para ratings soberanos são Oriente Médio, África, China e América Latina. Em particular, a Fitch sinalizou a incerteza criada pelas próximas eleições no México e no Brasil, e que a América Latina é a região mais fraca para as perspectivas de rating corporativo.

 

'Minha Casa' entregará mais unidades neste ano, diz ministro

O governo pretende aumentar em 2018 a entrega de unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida. O ministro das Cidades, Alexandre Baldy (PP-GO), disse ontem que, independentemente de motivações eleitorais, uma "força-tarefa" tem sido montada para acelerar as obras. A expectativa é entregar cerca de 75 mil unidades ainda no primeiro trimestre.

O orçamento do ministério para o programa habitacional em 2018 é de R$ 70 bilhões. Ontem, Baldy se reuniu, no Rio, com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e lideranças políticas fluminenses para tratar da retomada das obras de um empreendimento em Itaboraí, na região metropolitana. "Acredito que esse número [de unidades entregues em 2018] seja maior que em 2017, pelo fato de estarmos retomando muitas obras", afirmou o ministro, sem mencionar quantas unidades foram entregues no ano passado.

Ele argumenta que, em 2017, o governo deixou de investir cerca de R$ 24 bilhões no programa, devido aos problemas de capitalização da Caixa Econômica Federal, e que este ano pretende intensificar, com o "menor esforço orçamentário financeiro possível", a retomada da construção de cerca de 70 mil unidades do programa habitacional, que se encontram "paralisadas ou com andamento em ritmo lento".

"Estamos fazendo uma força-tarefa de forma que a gente possa não só manter a construção do Minha Casa, Minha Vida, mas também retomar as obras que estão paralisadas, que estão para ser entregues, no Rio de Janeiro e no Brasil", disse. Questionado sobre se a celeridade do governo nas entregas de novas moradias teria relação com as eleições deste ano, Baldy negou.

"Há muito tempo o governo vem trabalhando duro e elegendo os programas sociais entre suas prioridades." O ministro disse ter firmado um termo de compromisso com a Cedae, o Banco do Brasil, governo do Estado do Rio e a Prefeitura de Itaboraí, para que seja encontrada uma "solução definitiva" para a conclusão de um empreendimento de 3 mil unidades no município.

Segundo Baldy, as obras do complexo estão praticamente concluídas, mas ainda faltam investimentos relacionados ao sistema de abastecimento de água da região, assumidos e não cumpridos pela prefeitura local. Ainda de acordo ele, o Ministério das Cidades se comprometeu a investir R$ 33 milhões no projeto de saneamento, que atenderia 40 mil moradores da região.

 

 

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