Sexta-feira

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Ibre prevê fôlego extra, mas curto, na retomada do 3º tri

A recuperação da atividade foi mais forte no terceiro trimestre e indica um tombo da economia um pouco menos severo em 2020, mas o fôlego extra deve ter vida curta. A avaliação é do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), que passou a estimar crescimento de 7,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nos três meses terminados em setembro em relação ao segundo trimestre, feitos os ajustes sazonais.

 A projeção anterior era de expansão de 6,6%. Com a revisão, a estimativa para a queda da economia este ano melhorou ligeiramente, de -5,3% para -5,1%, informa a equipe de conjuntura do Ibre/FGV na edição de outubro do Boletim Macro, antecipada ao Valor.

“O Brasil tem sido um destaque positivo na América Latina, devido às medidas de distanciamento social mais brandas e às políticas de estímulos monetários e fiscais bem mais intensas que nos demais países da região”, afirmam os pesquisadores Armando Castelar e Silvia Matos na abertura do documento.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), mencionam eles, trabalha com recuo de 8,1% para o PIB do continente neste ano e retração de 5,8% para o Brasil. Por outro lado, as incertezas sobre 2021 se multiplicam. O instituto segue projetando expansão de 3,5% para o PIB no próximo ano, mas esse número tem viés de baixa.

Segundo Castelar e Silvia, a deterioração das condições financeiras em decorrência do risco fiscal é o principal ponto que levanta dúvidas. “A alta dos juros nos mercados futuros evidencia piora nas condições de rolagem da dívida pública, além de preocupações com o comportamento da taxa de câmbio e da inflação”, comentam os dois pesquisadores.

Como resultado, houve descolamento entre os prêmios de risco e a inflação corrente, ainda baixa. E o cenário do Ibre/FGV para 2021 não embute o recrudescimento atual nos preços de ativos, que funcionam como indicador antecedente do comportamento da atividade um trimestre à frente.

Uma das responsáveis pelo Índice de Condições Financeiras (ICF) da entidade, a pesquisadora Luana Miranda elaborou três hipóteses diferentes para o crescimento do ano que vem, a depender da evolução do ICF. Com condições apertadas, a expansão seria bem menor, de 1,7%. Em terreno de neutralidade, a alta seria igualmente mais fraca, de 2,9%. Por fim, o exercício que mais se aproxima do cenário-base, com avanço de 3,6% do PIB, é o que assume condições financeiras em nível frouxo.

Assim, se as condições financeiras permanecerem no patamar atual, o cenário de crescimento para 2021 terá que ser revisto para baixo, diz Silvia. “As incertezas elevadas são generalizadas e o risco fiscal é um componente importante dessa situação. Esse ambiente é ruim para as empresas”, aponta a economista, uma vez que a falta de previsibilidade inibe decisões de longo prazo, como investimentos.

 De julho a setembro, o Ibre/FGV calcula que a formação bruta de capital fixo (medida do que se investe em máquinas, construção civil e inovação) cresceu 7,5% em relação ao trimestre anterior na comparação dessazonalizada. A alta, no entanto, seria muito mais resultado da base de comparação fraca dos três meses encerrados em junho, quando a FBCF encolheu 15,4% na medida com ajuste.

Na seção do boletim sobre atividade econômica, Silvia e Luana observam que a produção de bens de capital, que tem alta correlação com os investimentos produtivos, é a mais distante de recuperar as perdas acumuladas na pandemia. Com os dados de agosto, o setor ainda está 13,6% abaixo do nível de produção registrado em fevereiro.

Do lado real da economia, outro indício de que a retomada vem perdendo força está no humor de empresários e consumidores, conforme aponta a seção de confiança do documento. Os dados prévios das sondagens de outubro do Ibre/FGV sugerem que a reação dos últimos meses foi interrompida, com recuo de 1,1 ponto da confiança empresarial e redução de 3,9 pontos no índice do consumidor.

“A piora das expectativas pode estar relacionada aos altos níveis de incerteza, devido ao impacto da pandemia na atividade econômica e na vida das famílias”, avaliam os pesquisadores Anna Carolina Gouveia, Rodolpho Tobler e Viviane Seda. Segundo os economistas, a incerteza nos campos econômico, fiscal, político e de saúde tem sido um fator limitador relevante das decisões dos agentes econômicos.

Para Silvia, a percepção dos consumidores tem sido afetada pelo mercado de trabalho ainda fragilizado, apesar das medidas do governo de suporte à renda. A recuperação do emprego seria, também, outra grande fonte de incerteza em relação ao próximo ano, destaca a coordenadora do Boletim Macro. “No pósrecessão de 2015 e 2016, o emprego crescia acima do PIB. Agora, infelizmente, devemos ter uma situação contrária a essa.”

 

Analistas veem Selic em 2% até fim de 2020

O cenário de incerteza elevada sobre os rumos da economia brasileira deve fazer com que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mantenha a taxa básica de juros inalterada na próxima semana. Essa avaliação é unânime entre as 76 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor, que também esperam a manutenção da Selic na reunião de dezembro do colegiado, a última de 2020.

Para o próximo ano, as projeções para a taxa básica se mostram bastante dispersas, mas há um consenso, compartilhado com o próprio BC, de que a rota a ser trilhada para os juros depende da situação fiscal. Desde agosto, a autoridade monetária se utiliza do “forward guidance” para indicar que não pretende retirar estímulos da economia até que as expectativas de inflação se aproximem da meta e com a condição de manutenção do regime fiscal que está em vigor. Entre as instituições consultadas, há quem já contemple em seu cenário base alguma flexibilização do teto de gastos, embora a maioria das casas aponte para uma expectativa de manutenção do teto.

A incerteza fiscal faz com que os agentes discordem quanto aos rumos da Selic no ano que vem: a mediana das estimativas de 75 analistas ouvidos ficou em 2,75% para dezembro do próximo ano, mas a moda indica a taxa básica em 2%. A hipótese de juros parados ao menos até o fim de 2021 é defendida por 22 instituições.

Nos cenários extremos, há quem aposte em cortes adicionais nos juros no próximo ano — caso da Persevera —, enquanto a ponta oposta é defendida pela Pezco, cujo cenário abarca a Selic em 4,75% em dezembro de 2021.

O economista-chefe do BTG Pactual, Claudio Ferraz, avalia que o ambiente atual é de uma incerteza singular, o que garante a manutenção do juro básico em 2% na reunião de semana que vem. Ele alerta, contudo, que, caso a questão fiscal não seja endereçada por completo, sua projeção de Selic em 3% no fim de 2021 pode soar “conservadora”.

“É preciso haver uma definição no campo fiscal. Estamos passando por um momento de incerteza bastante elevada, mas, se tivermos um encaminhamento definitivo das questões fiscais, essa incerteza recuaria. Do ponto de vista das condições financeiras, seria um vetor expansionista e que alongaria o horizonte”, afirma. “Não é à toa que o mercado precifica cenários de juro bem mais alto de olho no risco fiscal. É um tema crítico.”

O adiamento da decisão sobre o Renda Cidadã e, consequentemente, sobre como ficará o teto de gastos já em 2021 faz com que o cenário base sobre o qual o Copom trabalha seja essencialmente o mesmo, ainda que alguns riscos à inflação tenham crescido, diz a economista-chefe do Credit Suisse, Solange Srour.

Ela, porém, avalia que o comunicado da reunião da próxima semana deve trazer algumas mudanças que alertem para o crescimento dos riscos inflacionários trazidos pelo cenário fiscal. “Não enxergo mudança no ‘forward guidance’ na reunião de outubro, pois ainda não há definição do que ocorrerá com o teto. No entanto, acredito que o BC atualizará o texto do comunicado para se assemelhar com as últimas comunicações.

 O BC deve enfatizar que o balanço de risco para a inflação piorou, devido à incerteza quanto ao prosseguimento das reformas e da consolidação fiscal”, diz Solange. O Credit Suisse entende que a Selic permanecerá inalterada em 2% e que um processo de normalização monetária terá início em 2021, com o juro básico encerrando o próximo ano em 4%. Os ruídos em torno do rumo das contas públicas, porém, devem fazer com que o Copom retire o “forward guidance” de sua comunicação nesta reunião, aponta o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart.

Para ele, no entanto, a autoridade monetária “deve manter a mensagem de que a ferramenta pode ser restabelecida no momento em que as inquietudes fiscais se reduzirem”. Desde a reunião de setembro do Copom, as intervenções dos dirigentes têm sido cada vez mais vinculadas ao fiscal.

No início desta semana, inclusive, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que o Brasil está “no ponto de inflexão” em que é necessário passar credibilidade. “Precisamos voltar para o plano original de ir para o investimento privado e restaurar a credibilidade. No nosso caso, a credibilidade está e estará conectada com a disciplina fiscal e continuação das reformas”, alertou. É com base no respeito ao teto de gastos que a economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, acredita que o juro básico pode ser mantido em 2% agora e encerrar 2021 em 3,5%.

Para ela, em uma flexibilização do regime fiscal, “pode haver desancoragem das expectativas de inflação e também novas desvalorizações cambiais que poderiam ter impacto na trajetória da inflação”. A economista aponta que uma aceleração da inflação mais rápida do que o esperado levaria o Copom a elevar os juros antes do projetado em seu cenário básico “e, eventualmente, até de forma mais rápida”.

No curto prazo, porém, Rafaela diz não ver pressões inflacionárias, ao apontar que “a alta dos preços de alimentos se deve a um choque temporário de oferta e tende a passar”. Na avaliação da economista-chefe da BNP Paribas Asset Management, Tatiana Pinheiro, “o que está na mesa é se continuaremos a tocar uma agenda de consolidação fiscal para tornar os gastos mais eficientes ou se vamos para uma agenda que foca mais em questões de curto prazo”. Para ela, as discussões sobre a condução da política fiscal devem ser tomadas mais para o fim do ano, o que impede a política monetária de responder imediatamente à condução das contas públicas.

Ao partir de um cenário que contempla a manutenção do teto de gastos em 2021, a economista espera que o comunicado da decisão do Copom de semana que vem não sofra alterações significativas, embora o cenário siga bastante incerto. Com uma visão distante do consenso do mercado, a Persevera espera cortes adicionais de juros em 2021, ao apontar para a tese de que o inimigo a ser combatido é a estagnação do crescimento.

Para o diretor de investimentos da gestora, Guilherme Abbud, há uma chance “bem grande” de que o Brasil precise de juros ainda mais baixos. “Acreditamos que o grande desafio do Brasil hoje é a falta de capacidade de crescimento, o que se traduz em pressões desinflacionárias”, afirma Abbud. “Depois que ficar mais claro que, passado o período atual de recuperação mais forte da atividade, o Brasil vai voltar a patinar, o BC vai ter que mudar o plano de voo”, afirma. A Persevera espera que o crescimento não ultrapasse o nível de 2,5% em 2021, enquanto a inflação ficaria em torno de 2,5%.

 

Teto é essencial, mas tirar todo apoio fiscal pode afetar retomada, diz FMI

Manter o compromisso com o teto de gastos é essencial para o Brasil sustentar a confiança dos mercados, mas uma retirada mais gradual do apoio fiscal em 2021 é desejável se os resultados sanitários, sociais e econômicos forem piores do que as autoridades esperam hoje, diz Alejandro Werner, diretor do departamento para o Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Segundo ele, tirar “totalmente o apoio nos próximos meses pode colocar em risco a recuperação incipiente”, num cenário em que a pandemia ainda está em evolução e as cicatrizes que ela vai deixar são desconhecidas. Um ponto importante, na visão de Werner, é que é “acabar com as transferências de renda para as famílias vulneráveis e para os trabalhadores informais enquanto o mercado de trabalho ainda está fraco pode levar à maior desigualdade de renda e de gênero”.

Nesse quadro, “manter algum apoio no próximo ano daria alguma margem de manobra para lutar contra os efeitos da pandemia e reduzir a vulnerabilidade do Brasil a cicatrizes relacionadas à crise”, afirma ele. “A esse respeito, reduzir os gastos obrigatórios e a rigidez orçamentária é essencial para abrir espaço para mais despesas produtivas embaixo do teto.”

Para Werner, preservar o teto de gastos é uma âncora fiscal fundamental para sustentar a confiança dos mercados e manter sob controle o prêmio de risco soberano, num país cuja dívida bruta vai se aproximar de 100% do PIB, um nível elevado para uma economia emergente.

“Para 2021, as autoridades reiteraram o seu compromisso de respeitar o teto de gastos, implicando uma reversão total das despesas excepcionais deste ano. No entanto, dada a elevada incerteza em relação ao cenário econômico e sobre como a pandemia vai evoluir, as autoridades devem estar preparadas para oferecer apoio fiscal adicional se as condições ficarem piores do que elas esperam”, diz ele.

Werner falou com o Valor por e-mail. O Fundo divulgou ontem o relatório Perspectivas Econômicas para o Hemisfério Ocidental. No documento, o FMI diz que a persistência da pandemia obscurece a recuperação das economias da América Latina e do Caribe, vendo uma retomada “desigual e parcial” na região, que deve ver o seu PIB encolher 8,1% em 2020 e crescer 3,6% em 2021.

Em junho, o Fundo previa uma queda de 9,4% para o PIB da América Latina neste ano e uma expansão de 3,7% no ano que vem. Para o Brasil, as estimativas são de uma retração de 5,8% em 2020 e um crescimento de 2,8% em 2021, números divulgados há algumas semanas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O FMI vê uma recuperação “parcial e desigual” para a América Latina. Que economias da região têm as perspectivas mais encorajadoras - e quais países enfrentam um cenário menos favorável?

Alejandro Werner: Todos os países da região devem sofrer contrações econômicas em 2020. A única exceção é a Guiana, que está expandindo a sua produção de petróleo. Mas esse quadro mascara algumas diferenças importantes dentro da região. Alguns países na América Central, como Costa Rica e Guatemala, e na América do Sul, como Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, devem sofrer recessões mais suaves. O melhor desempenho reflete diferentes fatores, incluindo uma boa administração da pandemia (caso do Uruguai), forte apoio de políticas (caso do Brasil), crescimento positivo dos termos de troca (Chile) e uma recuperação forte das remessas (Guatemala) e a demanda externa (América Central). Em contraste, países do Caribe muito dependentes do turismo vão sofrer recessões profundas, a despeito do relativo sucesso em conter a disseminação do vírus. A parada súbita na chegada dos turistas e os confinamentos locais foram como um ataque cardíaco para as suas economias, uma vez que o turismo respondia por algo entre 20% e 90% do PIB e do emprego antes da pandemia.

Valor: O relatório Perspectivas Econômicas para o Hemisfério Ocidental diz que o panorama de médio prazo “aponta para uma recuperação demorada, refletindo custos econômicos, e a maioria dos países não voltará aos níveis do PIB pré-pandêmico antes de 2023. Afirma ainda que elas “serão moldadas por fatores que afetam a demanda externa e interna e pela forma como as cicatrizes da pandemia diminuirão o produto potencial”. Quais os principais fatores que indicam uma recuperação demorada?

Werner: Há diversos fatores que contribuem para a nossa projeção de uma recuperação demorada. A demanda por atividades que são intensivas em contato, como hospitalidade, transporte, comércio varejista, deve permanecer contida se o medo de contágio persistir. O impacto sobre a atividade econômica vai depender da importância dessas atividades para a economia, do estado da pandemia e de quão bem as empresas vão implementar protocolos sanitários e de distanciamento social. Além dessas considerações sobre a demanda, a incerteza sobre a evolução da pandemia e da economia deprimiu o investimento na região. Embora a expectativa seja de que o investimento se recupere gradualmente nos próximos anos, a nossa projeção sugere que o estoque de capital da região vai sofrer um golpe e afetar a oferta agregada. A pandemia também causou perturbações sem precedentes no mercado de trabalho da região. Muitos latino-americanos perderam os seus empregos nos meses recentes, e muitos outros deixaram totalmente a força de trabalho. Embora parte das perdas de emprego tenha sido revertida, os níveis de ocupação permanecem deprimidos em toda a América Latina. Há dois riscos que derivam desses padrões. Muitos trabalhadores antes empregados no setor formal podem retornar para atividades informais, que são tipicamente menos produtivas. Além disso, o impacto da pandemia no mercado de trabalho atingiu desproporcionalmente as famílias de menor renda, o que aponta para a natureza regressiva do choque.

Valor: A economia brasileira deve recuar de 5% a 6% neste ano, um resultado melhor do que o projetado há alguns meses pelo FMI e por outros analistas. O que explica a contração menos intensa do PIB em 2020?

Werner: Felizmente, a recessão se tornou um pouco menos severa do que nós havíamos antecipado em junho. Parte se deve à recuperação mais rápida da mobilidade do que esperávamos, o que é verdade para vários países do mundo. No caso do Brasil, o grande apoio fiscal oferecido pelo governo é um motivo-chave para a revisão da estimativa para a variação do PIB em 2020 para uma queda de 5,8% [a projeção anterior era de -9,1%]. Especificamente, a previsão de crescimento revisada reflete a extensão das transferências emergenciais e uma propensão marginal maior de usar esses recursos para o consumo, como mostrado pela rápida recuperação das vendas do varejo para níveis anteriores à covid já em junho.

Valor: Para 2021, o FMI projeta um crescimento de 2,8% para o Brasil, uma recuperação gradual depois do tombo forte esperado para 2020. Por que a retomada da economia brasileira deve ser tão gradual?

Werner: Nós esperamos que a recuperação em 2021 seja contida pelos efeitos persistentes da crise sanitária, pela retirada do apoio fiscal e pelas cicatrizes relacionadas à crise no mercado de trabalho. A redução da poupança das famílias acumulada durante 2020 vai suavizar o consumo em alguma medida. Como em muitos países, o investimento vai ser afetado pela capacidade ociosa e pela elevada incerteza sobre as perspectivas de crescimento. Os desafios de longo prazo da baixa expansão da produtividade, combinada ao baixo investimento, também vão restringir o crescimento, na ausência de reformas estruturais decisivas.

Valor: A dívida bruta brasileira deve terminar 2020 próxima de 100% do PIB, enquanto o déficit primário deve superar dois dígitos. O Brasil deve adotar uma consolidação fiscal antecipada, começando em 2021, ou há espaço para um ajuste mais gradual?

Werner: Como você diz, a dívida pública deve subir para cerca de 100% do PIB, e as necessidades brutas de financiamento estão na casa de 28% do PIB em 2020. Na comparação internacional, os dois níveis são elevados para um país emergente. Nesse cenário, preservar o teto de gastos constitucional é uma âncora fiscal essencial para sustentar a confiança dos mercados e manter contido o prêmio de risco soberano. Com o apoio do teto de gastos, uma consolidação fiscal de pelo menos 3% do PIB depois de 2021 será necessária no médio prazo para fechar o déficit primário e estabilizar a dívida pública em relação ao PIB nos níveis atuais. Para 2021, as autoridades reiteraram o seu compromisso de respeitar o teto de gastos, implicando uma reversão total dos gastos excepcionais deste ano. No entanto, dada a elevada incerteza em relação ao cenário econômico e sobre como a pandemia vai evoluir, as autoridades devem estar preparadas para oferecer apoio fiscal adicional se as condições ficarem piores do que elas esperam.

Valor: Alguns analistas dizem que o teto de gastos deve ser flexibilizado, excluindo investimentos, por exemplo. Eles dizem que o peso do ajuste é quase inteiramente focado nas despesas discricionárias. Seria apropriado flexibilizar o teto de gastos ou isso minaria a credibilidade fiscal, levando à desvalorização do câmbio e à alta dos juros futuros?

Werner: Isso volta à minha resposta anterior. As autoridades identificaram corretamente a composição das despesas como uma grande preocupação, com apenas uma pequena parte do orçamento disponível para gastos discricionárias, incluindo o investimento público. No momento, o fundamental é reformar os gastos obrigatórios para abrir espaço para as despesas discricionárias, em vez de flexibilizar o teto. Passos importantes incluem cortar dos gastos de pessoal e reduzir a indexação e a vinculação. Essas medidas permitiriam uma poupança de até 1% do PIB por ano. A proposta de reforma administrativa do governo vai na direção correta para enfrentar essas questões numa base mais estrutural, mas a reforma deve incluir também os atuais servidores, para antecipar a economia fiscal. Voltando ao investimento público, ele pode ter um papel importante em apoiar a recuperação pós-pandemia. Mas o investimento público bem sucedido também requer prioridades estratégicas e seleção de projetos. Na nossa visão, as autoridades podem desenvolver uma carteira de projetos prioritários e de alta qualidade e estabelecer um processo novo e mais rigoroso de seleção, avaliação e aprovação. Nesse cenário, as autoridades devem melhorar a coordenação entre o governo federal e os governos subnacionais no planejamento do investimento.

Valor: O governo planeja criar um programa mais ambicioso de transferência de renda, mais amplo que o Bolsa Família. Como o sr. avalia essa iniciativa - e o Brasil tem espaço fiscal para criá-lo?

Werner: Nós achamos que racionalizar e refocar os programas sociais existentes deve ser uma prioridade das reformas, e saudamos a intenção da autoridades de fazer isso. Entre os programa de assistência social, o Bolsa Família é bem focado e tem bom custo benefício, mas outros programas são menos progressivos e menos eficientes. No FMI, nós apoiamos a recomendação do Banco Mundial de consolidar todos programas de benefícios de renda não contributivos em um único programa. A racionalização poderia economizar cerca de 0,7% do PIB dentro do teto de gastos, que poderia ser usado para financiar um novo programa que tenha como modelo o Bolsa Família e as melhores práticas dos países da OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico].

Valor: No Monitor Fiscal, divulgado neste mês, o FMI diz que “a prioridade de curto prazo deve ser evitar uma retirada prematura do apoio fiscal”, que deve “persistir, pelo menos em 2021, para sustentar a recuperação e evitar cicatrizes de longo prazo”, com saúde e educação como prioridades. Além disso, o FMI afirma que países com restrições fiscais devem priorizar a proteção dos mais vulneráveis e eliminar desperdícios. Em que medida essa recomendação se aplica ao Brasil - e é possível segui-la e ao mesmo tempo respeitar o teto de gastos?

Werner: Sim, essa recomendação também se aplica ao Brasil. Embora manter o teto de gastos no médio prazo seja fundamental para sustentar a confiança dos mercados, uma retirada mais gradual do apoio fiscal em 2021 é desejável se os resultados sanitários, sociais e econômicos forem piores do que as autoridades esperam atualmente. Com a pandemia ainda evoluindo e como as suas cicatrizes são desconhecidas, tirar totalmente o apoio nos próximos meses pode colocar em risco a recuperação incipiente. Um ponto importante é que acabar com as transferências de renda para as famílias vulneráveis e para os trabalhadores informais enquanto o mercado de trabalho ainda está fraco pode levar à maior desigualdade de renda e de gênero. Manter algum apoio no próximo ano daria alguma margem de manobra para lutar contra os efeitos da pandemia e reduzir a vulnerabilidade do Brasil a cicatrizes relacionadas à crise. A esse respeito, reduzir os gastos obrigatórios e a rigidez orçamentária é essencial para abrir espaço para mais despesas produtivas embaixo do teto.

Valor: A flexibilização do teto de gastos pode colocar em risco a Selic em níveis baixos?

Werner: Na sua comunicação pública, o Banco Central (BC) deixou muito claro que vê o cenário fiscal como um fator-chave para a política monetária. Quando o BC introduziu o forward guidance [a política de prescrição futura] no seu comunicado de agosto, afirmando que vai manter os juros no nível atual até que as expectativas de inflação e as projeções estiverem suficientemente próximas da meta, ele deixou claro que isso dependia da manutenção do atual regime fiscal. Nós também vemos as taxas de juros de mercado reagindo às notícias fiscais diariamente, reforçando a importância do cenário fiscal para ancorar as expectativas. Nesse sentido, se o adiamento da consolidação fiscal for percebido como um escorregão para o desregramento das contas públicas, isso pode causar uma alta dos juros. De outro lado, no nosso atual cenário-base, de continuidade da adesão ao teto, a política monetária carrega o peso de apoiar a economia. A Selic em 2% ao ano corresponde a uma taxa negativa em termos reais, o que é fortemente expansionista. Se a inflação e as expectativas de inflação permanecerem abaixo da meta, nós vemos espaço para cortes adicionais da Selic, enquanto se monitoram cuidadosamente as possíveis implicações para fluxos de saída de capitais e riscos para a estabilidade financeira. Se os riscos negativos se materializarem depois que a política monetária convencional for exaurida, o BC também tem a opção de comprar ativos.

 

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